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O plano “B” de Aécio Neves?

Se até para os deputados do PSDB de Minas a vinculação de suas imagens à de Aécio pode criar embaraços, para candidatos a cargo majoritário, como Pacheco, a associação pode ser fatal.

 

Pré-candidato ao governo de Minas, o deputado federal Rodrigo Pacheco (DEM) pode ser assombrado por sua relação com o senador Aécio Neves (PSDB), hoje, considerado um “cadáver político”. Pacheco, que está em seu primeiro mandato como deputado federal, vem caminhando politicamente com Aécio Neves há meses, com o intuito de ampliar sua articulação política a fim de se tornar viável na corrida pelo Palácio da Liberdade. Com isso, Pacheco poderia ser visto como o plano “B” de Aécio Neves nas próximas eleições.

Gravado pedindo R$ 2 milhões ao empresário Joesley Batista, Aécio se tornou um estorvo para seu próprio partido e para aliados políticos. Se até para os deputados do PSDB de Minas a vinculação de suas imagens a de Aécio pode criar embaraços, para candidatos a cargo majoritário, como Pacheco, a associação pode ser fatal.

Pacheco chegou à presidência da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados – órgão de destaque na Casa, por onde passam, obrigatoriamente, todos os processos legislativos – com o apoio do vice-governador de Minas, o emedebista Antônio Andrade, mas também com o apoio do PSDB. O apoio dos tucanos veio também pela relação que eles iniciaram no segundo turno da disputa pela Prefeitura de Belo Horizonte. Pacheco, que concorreu como candidato a prefeito da capital e alcançou o terceiro lugar, com quase 120 mil votos (cerca de 10% do eleitorado), apoiou, no segundo turno, o tucano João Leite. Ou seja: acompanhou os tucanos na derrota para o outsider Alexandre Kalil (PHS).

Antes de ser alçado à CCJ, Pacheco foi indicado pela bancada mineira do PMDB para ocupar o Ministério da Justiça, no lugar do ex-ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, que fora  indicado pelo presidente Michel Temer para ocupar a vaga de ministro do Supremo Tribunal de Justiça, no lugar de Teori Zavascki, morto em acidente de avião.

Nessa ocasião, Pacheco conseguiu o apoio de Aécio à sua postulação. À época, a articulação de Pacheco era vista com bons olhos pelo Palácio do Planalto, já que conseguia angariar apoio de lideranças para além do seu espectro partidário.

O presidente Michel Temer estava divido entre o deputado mineiro e o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, o também mineiro Carlos Velloso.

Nesse meio tempo, a grande imprensa passou a repercutir as críticas feitas por Pacheco a delação premiada – procedimento sem o qual a Operação Lava Jato não teria realizado nem um terço do que realizou – e à PEC37, projeto que retirava do Ministério Público poder de investigação, outro expediente vital para a Lava Jato. Por ilação, Pacheco, à frente do Ministério da Justiça, passou a representar uma “ameaça” à operação.

Antevendo crises e críticas, Temer optou por Carlos Velloso. Em seu apoio, Aécio Neves também. A Aécio, então presidente nacional do PSDB, segundo especulava-se nos bastidores, coube a indicação de Velloso à pasta. O gesto do tucano gerou mal estar com o PMDB Mineiro.  Nos bate-papos entre deputados no plenário da Câmara dos Deputados e também nos grupos de whatsapp das bancadas, Aécio passou ser chamado de “traidor”..

Como embaraço pouco é bobagem, Carlos Velloso agradeceu a indicação mas recusou o convite para comandar o Ministério da Justiça.

Apesar do mal estar causado pelo episódio, Pacheco e Aécio “fizeram as pazes”. O bom alinhamento entre eles ficou claro na votação da segunda denúncia apresentada pelo então procurador-geral da República, Rodrigo Janot, contra o presidente da República, Michel Temer, e seus dois ministros, Moreira Franco (Secretária-Geral) e Eliseu Padilha (Casa Civil).

O presidente da CCJ ignorou os pedidos do líder do PSDB na Câmara, o deputado Ricardo Tripoli, para que não indicasse outro tucano para a relatoria do processo, e nomeou o deputado Bonifácio Andrada (PSDB-MG), parlamentar que integra o grupo do senador Aécio Neves, para a relatoria da denúncia.

O primeiro processo, em que Temer foi acusado de corrupção passiva com base na delação dos executivos da J&F, Pacheco nomeou outro tucano mineiro, também próximo a Aécio Neves: o deputado federal Paulo Abi-Ackel. Ele foi escolhido depois que o parecer elaborado pelo deputado Sergio Zveiter (PMDB-RJ), que recomendava o prosseguimento da denúncia contra Temer, foi rejeitado.

Como as indicações dos integrantes da CCJ competem à liderança dos partidos, o deputado Ricardo Tripoli destituiu Bonifácio Andrade da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). O governo se movimentou e conseguiu que o deputado Marco Feliciano, do PSC, cedesse sua vaga na comissão para que Andrada permanecesse como relator. O resultado desse jogo de xadrez é conhecido: Bonifácio Andrada rejeitou, em seu relatório, que as denúncias que acusavam Michel Temer e seus dois ministros de integrarem uma “organização criminosa” e de obstrução de justiça, fossem encaminhadas ao Supremo Tribunal Federal (STF). O governo conseguiu a aprovação do relatório com uma votação de 251 votos a favor. Ao todo, 233 votaram a favor do envio da investigação ao supremo.

Se, antes, a proximidade entre Aécio e Pacheco era de conhecimento apenas dos que acompanham os bastidores da política, ela passou a ser amplamente noticiada pela imprensa.

No meio do ano passado, por exemplo, a coluna Radar, da revista Veja, noticiou que, “Aprovado por Aécio, presidente da CCJ quer governo de MG”. No interior da nota, a informação de que Pacheco poderia se filiar no PSDB.

O jornal O Tempo, também fez grande divulgação da proximidade entre Aécio e Pacheco. Com dificuldades de lançar sua candidatura ao governo de Minas pelo PMDB, Pacheco passou a procurar outra legenda. Nesse ínterim, o jornal O Tempo noticiou que Aécio Neves era o articulador da sua filiação no DEM.

Segundo a coluna, “As negociações de Aécio para alavancar o nome de Pacheco ocorrem diretamente com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), líder nacional da legenda. Essa costura política ainda poderia dar a Pacheco o apoio do PSDB na disputa ao governo de Minas”.

Faz sentido que a ida de Pacheco para o DEM tenha tido o apoio do tucano. Aécio tem boa relação com Rodrigo Maia. Depois de eleito presidente da Câmara, o primeiro compromisso público de Maia foi uma visita ao mineiro. “Eu não poderia deixar de, assim que saísse de casa hoje, visitar quem construiu comigo na base essa vitória. Essa vitória eu devo a todos, mas na origem, devo a Aécio Neves. Na vida, a gente tem que ser grato àqueles que entram num projeto quando poucos acreditam”, disse o presidente da Câmara.

O candidato do candidato do Aécio

Pacheco chegou a condição de possível candidato de Aécio Neves pela resistência do senador Antônio Anastasia de lançar-se ao pleito. Depois de ter negado por duas vezes os pedidos, tanto de Aécio quanto do pré-candidato do pré-candidato do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, Anastasia aceitou, na noite do dia 16 de março, “discutir a possibilidade da sua candidatura”.

Mas existe ainda grande desconfiança por parte dos próprios tucanos com relação a candidatura de Anastasia. E eles têm razão. No dia que Anastasia sinalizou com a possibilidade de entrar na disputa, ele discursou, horas antes, como se Pacheco ainda fosse seu candidato. “O deputado Rodrigo Pacheco é uma revelação da jovem política mineira. Eu sempre defendi a tese da permanente renovação da política. Nós temos de ter valores novos. Cultivar os antigos, prestigiando aqueles que têm uma tradição, uma trajetória, uma caminhada e experiência, mas nós temos que identificar novos valores. Pessoas que têm condições de trazer com sua energia e sua condição novas ideias, com uma posição renovadora. Rodrigo é isso. Rodrigo é um advogado brilhante, deputado em seu primeiro mandato, mas já com grande reconhecimento em Brasília”, elogiou Anastasia.

O discurso foi feito ao lado do próprio Pacheco, na cidade de Ouro Fino.

Dias depois do anúncio, Anastasia viajou para a Suécia.

Hoje, existe um forte burburinho nos corredores da Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados de que o anúncio feito por Anastasia tinha como intuito apenas estancar a debandada de deputados do PSDB, que estava para acontecer em decorrência da janela eleitoral e das dificuldades dos tucanos de costurar alianças com outras legendas.

Dificuldades que teriam feito, por exemplo, Pacheco se afastar de Aécio nos últimos meses.

O Poder em Foco fez contato com assessoria do deputado federal Rodrigo Pacheco para ouvir dele como está sua relação com os tucanos, se uma possível associação da sua imagem a do senador Aécio Neves poderá criar embaraços à sua candidatura e outras questões. Até o fechamento dessa matéria, nenhuma das questões foi respondida.

Esse roteiro de idas e vindas, apoios e aversões, deve ganhar capítulos mais decisivos com o encerramento da janela partidária, o que acontecerá no próximo sábado (7). Até lá, Minas segue com um dos cenários eleitorais mais indefinidos desde a redemocratização.

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